- O que se passou? - perguntei eu. A Catarina encolheu os ombros e o Ryan baixou o olhar, como algo arrependido.
Achei por bem (não me perguntem porquê) ir ver se o Kevin estava bem.
Andei à procura dele pela nossa (pequena) casa. Faltava-me a casa-de-banho. Só podia estar ali. Bati à porta. Nada. Bati outra vez. Silêncio.
- Kevin, posso entrar? - e encostei a orelha à porta. Ouvi leves soluços. Mas nada.
OK, eu sei que é uma falta de privacidade e esse tipo de coisas entrar na casa-de-banho sem a eventual autorização mas pareceu-me o mais acertado a fazer.
Quando entrei, juro que fiquei enjoado e só me apeteceu sair dali o mais rapidamente possível. Mas a sorte é que tenho uma fantástica capacidade de me manter frio neste tipo de situações. Fechei rapidamente a porta.
Ali estava ele. Sentado no meio do chão. Com a face cheia de lágrimas. Com um ar pesado, deprimido, um quê de ameaçador. Sangue aos seus pés... Uma lâmina (não me perguntem do quê, nem da onde) numa mão e a outra escorrendo sangue. O braço esquerdo completamente cortado.
A primeira coisa que eu fiz foi pensar: FUCK THE CLOTHES! De seguida, sentei-me ao lado dele e abracei-o. Ficámos assim um belo quarto de hora. Ele a chorar compulsivamente, e, eu, não conseguindo conter-me, também chorei com ele. Depois lembrei-me de que ele estava a perder muito sangue e tentei 'acalmar' o derrame de sangue. Quando acabei, com a manga da camisa, limpei todas as lágrimas do seu rosto. Sentei-me com as pernas dele entre as minhas e abracei-o. De seguida dei-lhe um beijinho na testa.
- Não preciso que me contes o que se passe, nem te vou obrigar a tal. Mas nunca mais te quero a fazer isso... Qualquer coisa que aconteça podes vir falar comigo. Sobre tudo. Estás à vontade. Ouviste? Nunca, mas nunca mais me faças isso...
Respirou fundo. Tirei-me de cima dele e sentei-me na sua frente. Fizemos silêncio durante uns cinco minutos...
- Eu sou... - hesitou durante tempos - homossexual, como tu. Os meus pais 'aceitaram', mas não estão muito felizes com isso. O meu irmão... Goza comigo, como se isso fosse algum motivo de brincadeira ou algo do género... Estou tão farto... É como se ninguém quisesse saber de mim, ou apoiasse, ou amasse... Estou sozinho e abandonado no mundo... Sou uma desilusão... - e baixa o olhar.
- E achas que a minha vida é muito diferente? Os meus pais basicamente expulsaram-me de casa. O meu irmão mais velho não quer saber de mim e a minha irmã mais nova pode morrer de leucemia daqui a 5 minutos. Achas que também é fácil?
Ficámos os dois calados durante muito tempo. O Ryan e a Catarina tinham-se ido embora. No problem with that.
- Desculpa pelo que te vou fazer Joachim, mas não consigo evitar...
Aproxima-se de mim e beija-me. Não estava nada à espera, mas inconscientemente, sorri.
- Oh my fucking God, kiss me again... - disse eu, desesperado por algum tipo de desejo.
Beijamo-nos. Uma e outra vez. Ele sorriu. Eu também...

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